Cultura

E agora, Brasil?

As oito seleções que chegaram às quartas de final são consideradas as oito melhores do mundo do futebol. O Brasil ficou pelo caminho. E chorou. Sim, o futebol é misterioso. Sua mística derrete corações. E no país em que a bunda vale mais que o cérebro o futebol foi elevado à condição de religião acima daquelas que edificaram a tradição monoteísta.

Nesse ambiente, não seria exagero fazer de um ídolo deste esporte uma espécie de deus, diante do qual a paixão pelo futebol leva uma nação a se prostrar.

O credo futebolístico já foi capaz de parar guerras. Mas também de ignorar obviedades. A eliminação, ainda que dolorosa, não retira os cinco títulos mundiais que o Brasil tem na modalidade. Entretanto, o desespero com a saída precoce revela que a roda das nossas prioridades gira na direção errada.

Somos pentacampeões no futebol. Todo mundo acha que isso é normal, é resultado do monopólio de um talento, um desenho do destino a ser sempre cumprido. Sabe-se que para cada título ficaram lágrimas pelo caminho. Mesmo fora da copa, o Brasil segue uma potência na religião chamada futebol.

Que tal desatarmos um pouco “o amor da chuteira” e entrarmos no campeonato mundial da educação? Afinal, nesta modalidade, de acordo com os exames internacionais de avaliação de alunos (PISA), o Brasil está atrás de países que nem chegaram próximo de se classificar para o mundial da Rússia, mas sabem ser campeões em educação, como Cingapura.

Em sua última edição, entre as 72 nações, o relatório mostrou que o Brasil está na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática. Em tese, saímos da Copa do Mundo de futebol em oitavo lugar. Todo mundo acha uma tragédia. Contraditoriamente, na Copa do Mundo da Educação somos sexagésimos. E ninguém se assombra com isso!

Aprendemos a ver como normal “a vitória” em campeonatos que degradam a condição humana e nos constrangem perante a comunidade internacional. Somos campeões em gravidez na adolescência, fenômeno do qual resulta o que a sociologia chama de “os filhos da vovó”, visto que adolescentes transferem às suas mães a responsabilidade de cuidar dos rebentos. Vencemos ainda o campeonato mundial de homicídios, com 62 mil por ano. Sim, a Síria é aqui!

No campeonato da corrupção também quase não temos concorrência. E se o nobre leitor acha que se trata de um problema do “andar de cima”, observe que até as canetas destinadas ao preenchimento de formulários de depósito em bancos são caprichosamente arrancadas das correntes que as prendem.

Mas o problema “são os políticos”, num país em que três meses depois das eleições, 70% da população não se lembra em que votou. Pobre Brasil!

Dessa forma, insistimos no credo futebolístico como anestésico que nos faz fugir dos verdadeiros problemas. Claro que é possível (e a ciência sugere isso) compatibilizar ótima performance no esporte e na educação, a Bélgica de Lukaku e a França de Kylian Mbappé estão aí para mostrar.

Mas ninguém consegue imaginar um Neymar fazendo um comercial mostrando que a educação é mais importante que o futebol para o futuro do País? Pois é!

Claro que os problemas que o Brasil tem não nascem da paixão pelo futebol. Ela, entretanto, parece constituir a síntese de nossa existência, razão pela qual não assimilamos a derrota neste esporte, enquanto ignoramos outras verdadeiramente devastadoras.

Em que pese sua aguda individualidade num esporte essencialmente coletivo, Neymar é um grande jogador.  Foi elevado à condição de pop star não por obra de sua postulação, mas por uma crônica esportiva vassala que se ajoelha em busca de audiência a qualquer custo. O menino mimado pelo pai e pela imprensa se recusa a ser o homem de 26 anos de vida!

Neymar passou a se sentir o centro do mundo. Consta que teria levado dois cabeleireiros à Copa. Deve ser verdade. Afinal, apresentou-se com um cabelo multicolorido, em contraste com um futebol sem cor.

Por fim, o Brasil seguirá sendo uma potência no futebol, com ou sem Neymar. Em 2022, o país poderá rir ou chorar no Catar. Mas no campeonato da educação não terá risos nem choros. Simplesmente porque esse campeonato quase ninguém tem interesse em acompanhar.

 

 

2 Comentários

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