Por mais que eu mergulhe nas profundezas do vernáculo, por mais demorado que seja o abraço prometido, “por mais que eu pense, que eu sinta, que eu fale, tem sempre alguma coisa por dizer (…)”. Eu nunca lhe direi tudo. Porque as palavras me escapam, covardes; porque a memória me trai, insana; e também porque não sou capaz de reconhecer, na justa intensidade, seu infinito amor. Tomo pedaços do que já lhe disse, enquanto penso no tanto que ainda lhe pretendo dizer:

Porque a distância geográfica aprofunda ainda mais a saudade. Alimento-me das “estórias” para vencer a distância, até reencontrar o abraço mais esperado.

EIS AÍ A MINHA PRINCIPAL INSTITUIÇÃO DE ENSINO. A ele devo as minhas poucas virtudes, e a mim mesmo atribuo meus infinitos defeitos. Com ele aprendi a levantar depois da queda, olhar pra frente e ter coragem de tentar quantas vezes forem necessárias. Com ele aprendi que existe o homem adjetivo e o homem substantivo. Sem saber, ensinou-me que o que importa é o homem substantivo, aquilo que você é na essência, não importa se médico, juiz, professor, gari.

Como se a dialogar com os ensinamentos mais íntimos do gigante escritor Guimarães Rosa, também sem saber, ensinou-me que mestre não é quem ensina, mas quem de repente aprende. Por mim, aceitou a dor da distância, que estraçalha a minha alma, mas que era inevitável para evitar uma dor ainda maior. Este homem carregou caixas de mel de abelha nas costas para vender, PARA QUE UM DIA EU PUDESSE CARREGAR CAIXAS DE LIVROS.

Este homem me apresentou ao meu primeiro trabalho remunerado aos meus 12 anos – e nunca mais me afastei de tal atividade. Este homem me mostrou que sentimentos sem ação constituem a danação da alma. Mas que o tempo da alma não caminha necessariamente com o tempo da ação. Este homem me ensinou o caminho da escola sem jamais ter frequentado uma, fez de mim principal depositário de sua confiança ao me permitir partir aos 15 anos de vida rumo ao desconhecido. Este homem me ensinou a olhar nos olhos as pessoas, porque os olhos não têm compromisso com a mentira.

Este homem me ensinou a gostar de poesia sem jamais ter citado o nome de um poeta, ensinou-me a nunca ignorar as pessoas, porque isso é tibieza de caráter. Como se fosse conhecedor do Direito Consuetudinário, ele me ensinou que o peso da palavra é maior que o do papel no qual se escreve. Ele me amou (e me ama!) sem necessariamente recorrer a tal verbo. Não trocaria seus ensinamentos por quaisquer faculdades. Este homem é o seu JOSÉ ALVES FILHO. Eu sou um privilegiado por ser seu filho. Por isso, posso dizer, sem medo de errar: EU TENHO O MELHOR PAI DO MUNDO! Parabéns, Pai!

 

Por  Maurício Reis de Sousa