Política do Espírito Santo, Política Nacional

Paulo Hartung, do abraço ao adeus!

Se, a exemplo de certo escritor, Paulo Hartung resolvesse contar os próprios anos, descobriria que tem menos tempo para viver daqui para frente do que já viveu até agora. Paulo Hartung tem muito mais passado que futuro. O fim se aproxima.

Entretanto, não se pode dizer que o governo de Paulo Hartung não foi de realizações. Aliás, os governos. Em três passagens pelo Palácio Anchieta aquele a quem chamo metaforicamente de o gigante de Guaçuí deixou suas marcas. Mas também deixou feridas.

Hartung entrega a Casagrande provavelmente a Polícia Militar com o maior número de suicídios do Brasil. A mesma PM que também é a mais mal paga do país. Não há aí uma relação de causa e efeito. Seria uma hipótese ginasial. Mas também pode sugerir que nem todos os frutos do ajuste fiscal são objeto de regozijo.   

Hartung vai deixar o Palácio Anchieta nos próximos dias. Ficarão para trás alguns amigos, muitos que sempre lhe prestaram vassalagem. Sua tentativa de ser um “político nacional” explica parte do problema. Oportunista de altíssima plumagem, o já quase ex-governador agora defende renovação política, como se isso não implicasse uma auto retirada da vida pública.

O que na prática o gigante de Guaçuí tenta renovar é sua estratégia para continuar sendo o eixo da política capixaba, mas agora tenta ser no sentido inverso, de fora para dentro. Para se manter influente abraça tanto um apresentador de programa policialesco quanto um apresentador global. Aliás, evidencia-se que o amigo de Hartung é sempre seu projeto de poder.

Mas o reinado começa a desmoronar. Casagrande terá um papel fundamental, ainda que possa esbarrar numa leitura rudimentar da cena política em curso no Brasil.   

Aos 62 anos de idade, governador por três vezes, Hartung é um bicho político. Talvez pouca coisa fora da política lhe cause alguma alegria. A terceira passagem pelo Palácio Anchieta teria tudo para ser a melhor. Foi a mais decepcionante.

Preocupado em se notabilizar nacionalmente pelo rigor fiscal, o gigante ignorou o óbvio: que as insatisfações difusas podem ganhar corpo, expressão e força. A tentativa de vender o Espírito Santo como exemplo a ser seguido mostrou-se caricata, falsa. Fugiu da derrota anunciada, com a arrogância de um político em ascensão. Mas há ali a decadência manifesta.  

Com Hartung o Espírito Santo enfrentou a pior crise de segurança pública já registrada, em fevereiro de 2017. Todo mundo perdeu.  Não se fala aqui da série histórica de redução de homicídios, cuja obra não lhe pertence exclusivamente. Seu desprezo pela polícia só não é maior que a ignorância sobre os temas dos quartéis. Mas da arrogância gerencial, cuja síntese foi a ideia de que “não ficará pedra sobre pedra”, fica também a certeza de que Hartung não deixará saudades.   

Paralelo o nascimento da crise, Hartung achou que pudesse preencher o tal “centro da política brasileira”. Nada mais falso. O oportunismo de Hartung já abraçou Lula, ignorou Temer na inauguração do Aeroporto e fingiu que Bolsonaro não existisse quando o Homo Sapiens foi recebido por uma multidão de capixabas no aeroporto da capital.

O oportunismo de Hartung chega a ser constrangedor. Na última eleição, faltando horas para a eleição, declarou voto em Alckmin. Antes, já ensaiara uma proximidade com aquele que deseja ser o Huck da política brasileira. Num caldeirão mental vazio de ideias, o apresentador global afirma agora que “Bolsonaro não tem projeto”. Verdade.

No entanto, os últimos projetos abraçados pelo funcionário da Globo tiveram como protagonistas Sergio Cabral e Lula. Ambos estão vendo o sol nascer quadrado. Enquanto isso, Bolsonaro chama Moro, que não tem misericórdia de corruptos!

Luciano Huck – que agora começa a querer ser político enquanto ainda finge ser apresentador- poderá enfrentar um boicote ao seu caldeirão de baixarias e banalidades nos próximos dias.  Como já disse, a Globo vigia uma parte apenas do poder, a que lhe interessa. E os brasileiros vigiam a globo, cuja audiência despenca como frutos apodrecidos e fétidos!

Hartung se vai. Deixará as contas em dia, um elefante na praia do Suá – Cais das artes – e a certeza de que seu projeto não aceitava outro como protagonista. Os principais aliados de começo de carreira serão em breve ex-mandatários. César Colnago, Ricardo Ferraço e Lelo Coimbra são a expressão da tristeza. Não se pode dizer que não sejam políticos respeitáveis. Mas só renascerão dos escombros do império que rui se recompuserem forças noutra direção.

A liderança que Hartung tenta exercer nacionalmente é a mesma de que desertou quando Fonseca Júnior avisou que “líder é pra liderar”. Era um aviso inteligente de um homem inteligente. Hartung não ouviu. Se candidato, certamente seria derrotado, mas garantiria a longevidade de um grupo que tem homens decentes ainda com energia para trabalhar. A deserção mostrou ser o encontro do medo com a arrogância, ainda que embalada no discurso da renovação.

Enfim, Hartung se vai. Hartung não era eterno. Ele tem muito mais passado que futuro. E o Espírito Santo terá muito mais futuro se mantiver o Palácio Anchieta sem influência de Hartung.  

 

1 Comment

  1. Patati

    Tchau querido!

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